Yasodara Córdova

Entrevista com Yasodara Córdova: Pesquisadora do Berkman Klein Center em Harvard, Desenhista Industrial e Desenvolvedora de Software. Também é co-chair do grupo de trabalho para dados na web do W3C. Trabalhou como consultora técnica em Design de Interfaces para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e para a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

1. Quais seriam as principais estratégias para termos, na gestão pública, propostas de Transparência e Dados Abertos?
Eu não diria que existe mais de uma estratégia disponível. Acho que a Web é uma boa plataforma pra apostar para dados abertos porque: é livre e aberta, sem royalties pra ninguém, e é universal. Acho que a gestão pública fica procurando a bala de prata quando a solução mais simples está batendo à porta faz anos.

2. Por que o tema “Software Livre” ainda é pouco divulgado por mídias (tradicionais e digitais) e não é trabalhado nas escolas?
Políticas de governo. Acho que foram escolhas dos Governos que tivemos.

3. Por que o monopólio de empresas como Microsoft e Apple parece ser tão inabalável?
Provavelmente porque produzem produtos de qualidade, com preços competitivos, e fornecem a assistência necessária aos usuários. É difícil quebrar monopólios de empresas consolidadas sem investimentos. Veja a Monsanto, por exemplo: a agricultura no Brasil está dependente de seus produtos e o Governo incentiva essa dependência, onde poderia estar incentivando a Embrapa e suas pesquisas. São escolhas, e o Governo influencia bastante nesses casos.

4. Quais são suas principais referências (pessoas ou obras de qualquer natureza) sobre temas como Software Livre, Cultura Digital, Plataformas Colaborativas, Transparência na Rede, etc.?
Sobre Cultura Digital eu admiro o trabalho do Alexander R. Galloway. Para plataformas colaborativas tenho acompanhado o trabalho do Tim Berners Lee, que inventou a Web, mas de olho no futuro, em projetos como o Ethereum e também o próprio Bitcoin. Sobre transparência na rede. Eu não sei exatamente o que essa expressão significa (teria que ter uma explicação sobre ela: se é transparência de governo, de empresas, de pessoas…) No software livre minha referência é o projeto Debian, com todos os seus erros e acertos. Admiro porque é um projeto que consegue se manter funcionando muito bem, com funcionalidades e uma horizontalidade interessante, ainda que se baseie em meritocracia. Outro projeto, claro, é o linux.

5. Como você entende que estamos construindo a nossa sociedade no âmbito digital?
Acredito que estamos em uma fase de investir em leis, tentando ajustar as novidades do digital aos nossos velhos conceitos. Por causa disso, a gente tem perdido muito tempo e energia em batalhas que cairão em desuso em 3, 4 anos. Leis que servem apenas a um tipo de plataforma e que, com a evolução das plataformas, acabam em desuso. Seria legal se estivéssemos realmente investindo na criação de uma sociedade digital: investir em escolas diferentes, com currículos flexíveis, investir na permanência da informação e de todas as suas nuances, fortalecer nossa infraestrutura, estabelecer negócios inovadores no Brasil, que melhorem a vida das pessoas, para além de trazerem riquezas para o País. Estamos subaproveitando oportunidades de ouro de construir um amanhã muito melhor, mas estamos investindo nosso tempo com discussões que já nascem mortas.

6. O que você pensa sobre o Marco Civil da Internet?
Acho que foi uma iniciativa interessante, mas como falei no parágrafo acima, perdemos muito tempo construindo um texto que depende da interpretação de juízes para ser aplicado, ao invés de construirmos ferramentas e processos que reforçassem os princípios do marco civil como prática. De nada adianta ter uma lei que prega a neutralidade da rede se entregamos nossa infraestrutura para empresas que não tem interesse em neutralidade. De nada adianta tentarmos prevenir vazamentos de fotos se não entregamos o poder sobre os conteúdos produzidos para o usuário. Não adianta nada tentar proteger a privacidade se nossas instituições de ensino sequer têm professores que saibam o que é criptografia. Querer proteger o cidadão em um país onde aplicativos são bloqueados porque se negam a entregar os dados com uma lei é criar uma ilusão de que temos saída jurídica, quando na verdade só quem está protegido pela lei são os que tem dinheiro para pagar advogados criativos.

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